Eu já estava vendido para a nova série da HBO “The Franchise” quando eu vi o nome de Armando Iannucci na produção. Sou fã de praticamente tudo o que o cara faz, desde séries políticas como “Veep” ou “The thick of it“, até filmes políticos como “The Death of Stalin” ou “In the loop” até a menosprezada comédia “Avenue 5“, que parece um humor boboca, mas tem forte conotação política e não é possível que o cara faça política tão bem, vou votar nele para prefeito nas próximas eleições.
The Franchise é meio diferente de tudo o que ele já fez na temática, mas não na execução. Ainda é uma sátira e uma das melhores que estão disponíveis por aí. Ela alopra praticamente todo filme de herói que existe e toda a indústria que os produz. A vítima mais óbvia é a Marvel, com seu arsenal de filmes conectados e produções desastrosas comandadas por um único produtor todo-poderoso que nem aparece na série, mas cujo nome gela a espinha dos personagens quando proferido, de tão influente que ele é.
Acompanhamos a produção de um daqueles filmes da série B dos heróis (Tecto, o homem-terremoto), daqueles que só os nerds mais aficcionados já tinham visto num gibi. Como parte de um Universo maior, chegou a vez dele: seu filme próprio, com ligações com um Universo compartilhado (em certo momento, eles precisam retirar uma raça de personagens inteiros do filme por conta de um genocídio que aconteceu em outra história), crossovers (com heróis mais populares, claro), atores renomados fazendo uma ponta, e mudanças na história dos quadrinhos (que supostamente deveria ser canônica).
Quem acompanha desde sempre o mercado do cinema de quadrinhos vai se deliciar. Não faltam referências a acontecimentos e personagens desse universo, seja das coisas que acontecem na tela grande como os problemas de bastidores que rolaram por trás da produção. A série passeia por esse universo como se flutuasse.
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Até agora, a série alcançou seu ápice no episódio 3, quando um dos grandes produtores da franquia aparece no estúdio de Tecto para falar de um problema midiático que eles estavam enfrentando: a desconexão com o público feminino.
“Are you familiar with ‘the woman problem’?“
“What’s that? The… the menopause?“
“Way before your time, there was a… thing in the air. Maximum Studios has a problem with their girl characters. […] Suddenly we got a woman problem all over again. It’s like a menstrual cycle, but for women. And now they’re saying we’re not real feminists.“
Os produtores, diretores, atores e roteiristas se vêem obrigados a alterar a história, que tinha como protagonistas dois homens, para dar mais poder para as personagens femininas, irritando uma parcela mais sensata da produção.
“It’s based in the comics, those are the facts.“
“Are comics facts?“
Subitamente, não basta fortalecer a presença feminina. Eles precisam dar todo o poder possível (“The power of a thousand atom bombs“) à personagem feminina, tornando-a até mais forte do que o personagem principal.
“Oh yeah, just make it up.“
“It’s all made up, Daniel.“
“Yeah, so is the Bible. Let’s give the apostle Paul superhuman strength. Where’s that leave Jesus? Suddenly he’s just some hippie at a dinner party. Meanwhile, Paul is fighting Satan with a lightsaber.“
“My generation would totally read that version of the Bible.“
E é assim todo episódio. Sempre chega uma solicitação de alguém acima da produção para alterar levemente alguma coisa no filme, seja para encaixar aquela história com o seu universo compartilhado, seja para agradar a China. E a gente acompanha o tornado de merda que a decisão causa, afetando a produção, e obrigando refilmagens. E, no final, quem se fode sempre é o público.
Não em The Franchise. Na série, o público fiel dos quadrinhos vai sim se deliciar. Sátira de primeira, como tudo que leva o nome de Iannucci. Infelizmente a série não parece estar tendo a atenção que merece, mas torço para que o público descubra essa jóia o mais rápido possível.
“Silent nodding. Like a wife at a party“