“In many ways, the work of a critic is easy. We risk very little yet enjoy a position over those who offer up their work and their selves to our judgment. We thrive on negative criticism, which is fun to write and to read. But the bitter truth we critics must face, is that in the grand scheme of things, the average piece of junk is probably more meaningful than our criticism designating it so.” ~ Anton Ego, Ratatouille
Eu odeio críticas de cinema.
É uma afirmação meio discrepante, tanto pelo fato de que eu trabalhei escrevendo reviews de filmes por cinco anos no site Vitamina Nerd e ainda mais por estar agora inaugurando meu próprio portal de cultura pop, o Salada Caprese.
Eu, particularmente, acho a crítica um texto pobre. A crítica de cinema, principalmente, que é a que eu mais consumo, costuma ser tediosa e repetitiva. É de praxe que ela contenha uma revisão pedante sobre os aspectos técnicos, como uma frase enaltecendo (ou desmerecendo) a fotografia, iluminação, comentando o trabalho dos atores, usando termos obscuros como “plano holandês”, e simultaneamente esquecendo de vírgulas e compondo frases que não levam a lugar nenhum como esta. Me irritam as críticas que adicionam, além de tudo isso, um resumo do filme. Oras, meus senhores, se eu quiser saber sobre a história do filme, que eu vá vê-lo, poupe-me do trabalho de me contar o que vai acontecer.
Até mesmo o mais rebuscado texto crítico é um pequeno pedaço de pó do pior tipo de xurume nuclear em comparação à obra ao qual ele é destinado a criticar. O crítico, este gongórico e arrogante pernóstico, é o mais fraco ponto de toda uma cadeia cinematográfica, ainda pior que a audiência. Porque o público vai assistir o filme para se divertir (ou não), ao contrário do crítico que se coloca numa posição julgadora perante a obra. É como ter o Pedro de Lara reclamando da performance dos Beatles em um concurso de calouros.
Por ter essa opinião forte contra o meu próprio trabalho, eu sempre tentei fugir desse caminho fácil em minhas críticas. Eu evitava ao máximo entregar qualquer coisa sobre a história do filme, evitando até as sinopses recomendadas pelos estúdios em seus convites para as cabines. Em meus textos, eu tentava falar mais de curiosidades da produção e da minha própria experiência em assistir ao filme. Logo, era comum que eu desse notas mais altas para filmes que serviam álcool na cabine de imprensa ou que me davam brindes legais – e é claro que eu ressaltava esses fatos no meio da crítica, mantendo uma rara transparência editorial. Isso quando eu não simplesmente desvirtuava completamente do tema e, ao invés de julgar a obra, eu reclamava de qualquer coisa que estivesse me atormentando e que tinha a mais baixa conexão com o filme que eu tinha assistido. Por mais de uma vez, a editora do site (a excelente Veridiana Luna, que infelizmente também saiu do Vitamina Nerd) comentou que meu texto estava excelente, mas eu tinha esquecido de falar do filme. Como a própria Veri descreveu: minhas críticas eram mais crônicas minimamente conectadas com os filmes do que uma crítica em si. E ela nunca cortava nenhuma das minhas piadas – nem mesmo as mais ofensivas, como em algumas ocasiões que eu chamava o próprio público do site de burro.
Sendo um crítico de cinema que odeia crítica, acredito que minha vida será mais fácil estabelecendo meu próprio espaço por aqui. Sendo eu o responsável por todas as barbaridades que vão surgir eventualmente, desaparece a preocupação de acidentalmente manchar o nome do veículo ao qual eu trabalho no primeiro e inevitável cancelamento.
A idéia por trás do Salada Caprese é mais do que criar mais um portal de cultura pop: é eu poder odiar meu trabalho de crítico em paz e isso não afetar o meu amor pelo cinema, streaming, games e TV. É um site que eu estou fazendo para mim mesmo e quem quer que queira me ajudar de graça, porque dinheiro nenhum vai entrar aqui.
E é continuar me dando mais um motivo para ir ao cinema toda semana.