SALADA CAPRESE pomodoro é uma palavra legal

Wicked – parte um

Apesar de ser um grande fã de musicais, ainda não tinha tido o prazer de assistir Wicked, mesmo sabendo do que se tratava, e ter sim uma grande curiosidade em relação à história. O que não é comum no mundo dos musicais; graças ao Andrew Lloyd Webber, que deve ter sido o grande responsável por popularizar a idéia que os musicais da Broadway são umas histórias bestas que só servem para conectar ótimos números musicais (O Fantasma da Ópera que me perdoe).

Eu sabia que o filme se passava no mundo de O Mágico de Oz e contava a história da Bruxa Má. O que parece sim uma excelente premissa, e que a Disney vêm exaustivamente abusando, depois de ter percebido que o que mais tem de Intelectual Property são bruxas más. E, apesar de já ter virado clichê esse negócio de um twisted villain, eu adoro a idéia de pegar um vilão e tirar o maniqueísmo de sua jornada.

Verde combina bem com rosa

Elphaba é o nome da bruxa má. Inocente, desde o começo. Simpática, rejeitada, inteligente, poderosa (mas por acidente). O filme vira um “Meninas Malvadas” mágico, onde Elphie é a nerdola da vez, tendo que se virar em um ambiente escolar onde é hostilizada pela amiguinha mais popular. Cynthia Erivo encarna o papel com maestria, com um carisma abundante, como se ela a vida toda estivesse pronta para ser Elphaba.

Galinda é a bruxa boa. Insuportável, no começo. Arrogante, maquiavélica, linda, tonta. É fácil não gostar dela inicialmente, ainda mais por conta de um preconceito meu, pessoal e gratuito, por Ariana Grande. Bobagem. Ariana encarna o papel com maestria, com um timing cômico raro e uma redençãozinha ali que, no final, cabe tanto à personagem quanto à atriz.

Se, individualmente, elas arrasam, as cenas que elas se juntam são um deleite. A química entre ambas é deliciosa e, como o filme tomou tempo para criar bem suas protagonistas, também é um encontro explosivo.

Bom demais, sério.

It’s not easy being green

Pra mim, Elphie entra imediatamente no hall das grandes personagens verdes da cultura pop. Ela tem uma aparência de Gamora, um carisma de Caco, uma presença de Hulk, uma sabedoria de Yoda, um humor de Shrek.

Mesmo no mundo mágico de Oz, não é fácil ser verde. Ter que passar todos os dias da cor das folhas. Como não poderia deixar de ser, os roteiristas aproveitam muito bem a cor da personagem para elaborar metáforas óbvias mas muito lindas sobre a convivência da bruxa em um mundo onde ela é hostilizada por simplesmente existir. Levantar a pergunta se a bruxa má é intrinsecamente má ou se ela virou má por conta da convivência de uma sociedade que a tornou assim. Os behavioristas Skinner ou Murray Sidman iam adorar Wicked, descansem em paz.

Porque nenhuma das ações de Elphie (ao menos nesse primeiro ato) é realmente condenável. Ela está literalmente só respondendo ao ambiente – e às vezes, da melhor forma possível. E verde é a cor da primavera. E verde pode ser grande como uma montanha, importante como um rio ou alto como uma árvore. Quando verde é tudo que há para ser. Verde é lindo.

Blockbuster da vez

Desnecessário dizer, depois de tudo isso, que eu adorei Wicked. Uma direção discreta, mas perfeita de Jon M. Chu, duas atrizes arrasando em seus papéis, uma história legal, com um visual lindo. As músicas não me marcaram tanto, com exceção, talvez, de Defying Gravity e, surpreendentemente, Popular.

O filme é gigantesco: mais de duas horas e meia. Mas não parece. E dá para ignorar também o fato de que esta é apenas a primeira metade de uma história completa. Sim, o musical foi dividido em duas partes; Wicked Parte 2 deve estrear somente ano que vem, em 2025. Não importa: a hora do corte é excelente e, mesmo com as pontas soltas, há um arco completo. Tal qual uma história que não termina deveria ser.

Como uma crítica no Letterboxd disse: a retrospectiva do Spotify e os recomendados do Youtube de muita gente vão mudar para sempre depois desse filme. Com o ano quase acabando, a recepção positiva, a propaganda massiva que a Universal está fazendo, e o trabalho próximo da perfeição, muita gente vai terminar 2024 dizendo que Wicked é o filme do ano.

Eu não vou contrariá-los (tá no meu Top 3, pelo menos).

Autor:
Barão do Principado de Sealand. Com uma inexplicável paixão por cinema, cervejas e queijos.