Eu já declarei anteriormente aqui, quando assisti um documentário sobre votos religiosos, que eu sou um grande fã de cultos e religiões. Gosto das tradições, dos simbolismos, das idéias e metáforas que esses cultos e tradições trazem arraigadas.
As religiões são muito dependente de rituais. Principalmente a católica, que foi estabelecida em um passado mais distante que 20 vidas de um Silvio Santos. Os rituais seguidos pela instituição fazem cada vez menos sentido em tempos atuais.
Um dos meus blogs favoritos, o Melting Asphalt, publicou muitos anos atrás um texto excepcional a respeito. Com o icônico nome de Doesn’t Matter, Warm Fuzzies, ele abordava os rituais de forma científica, social e psicológica. E como todo texto que o Kevin Simler escreve, ele é bem aprofundado e embasado, então já fica aí a recomendação. O Melting Asphalt, inclusive, é uma das inspirações minhas para o nRT, que também tenta ser um blog embasado cientificamente com pouquíssimos textos por ano.
Um ritual para um papa
A eleição de um papa, por exemplo. Cada vez mais, esses velhotes ocasionalmente pedófilos vivem mais e mais. Culpa exclusiva do melhor acesso a tratamentos de saúde possível, uma vez que eles já são velhotes quando viram papa.
A morte de um papa, porém, desencadeia uma seqüência de rituais de tradição quase constante. Já era tempo do vaticano usar urnas eletrônicas e anunciar o vencedor em um tweet. Mas o ritual de escolha de um novo papa segue tendo votação de papel e comunicação por sinais de fumaça (literalmente). Tradição que dificilmente vai mudar, por falta de incentivo da própria Igreja mesmo.
Oras, a Igreja não é notoriamente a mais moderna das instituições. Ela ainda têm visões de mundo muito ultrapassadas em temas já amplamente aceitos. A igreja ainda condena métodos contraceptivos (só recentemente ela deu um aceno ao uso da camisinha). E dois homens se beijando é um tema que ainda tem alguns séculos até ser considerado passível de discussão.
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Mesmo o mais progressivo dos papas é quase tão conservador quanto nossas tias. E isso porque nos últimos anos de política brasileira, nossas tias ficaram mais conservadoras do que eram. Mesmo assim, o papel de papa ainda é de grande importância dentro da religião cristã. Um papa é ouvido, é visto, e é questionado. Um papa ainda tem uma grande dose de poder. Ainda é um cargo que pessoas estão dispostas a matar (e a morrer) para alcançar.
O ritual
Não que o filme Conclave seja tão drástico. Ele não perde tempo com a ação e faz questão de enclausurar o público junto dos personagens. Um cineasta mais popularesco adicionaria cenas caras com a multidão reunida na Praça São Pedro. Edward Berger é mais contido nesse aspecto: não saímos da Capela Sistina – a não ser quando um personagem sai; aí podemos acompanhá-lo.
Isso, que poderia ser visto como um problema, vira um trunfo. Não nos interessa mais o popularesco, o midiático. Os acontecimentos internos, do próprio ritual são a parte fascinante.
As roupas engraçadas, o enclausuramento ultra-secreto e as orações constantes não enganam ninguém. O conclave é um ritual embebido de política. Quando homens começam a lutar por conseguir um poder tão grande quanto a chance de ser pontífice, a moral religiosa pode vir a morrer de forma bem rápida.
O filme convida a audiência a acompanhar esse ritual de perto. Os personagens são bem desenhados, mesmo com seus objetivos óbvios. As atuações estão ótimas, como não poderiam deixar de ser, em um filme que depende dos personagens brilharem por si só. E a votação dá suas voltas.
Conclave ganhou um compreensível Globo de Ouro de melhor roteiro. E tudo indica que deve concorrer ao Oscar nessa categoria também: só o discurso proferido por Ralph Fiennes já é um primor de escrita. Ele é levemente mostrado no trailer, mas basicamente discute os problemas da certeza. A Igreja, como instituição, não pode buscar amplamente a certeza. Ela vive da fé. E a fé só pode existir na presença da dúvida.
Baita texto. Baita roteiro. E um bom filme.