O relançamento nos cinemas de um filme de 1985, graças à digitalização da obra feita pela Sessão Vitrine Petrobrás, nos permite estabelecer uma linha paralela entre o ano de produção da película e o ano que vivemos. No caso de “A Hora da Estrela”, que eu li lá quando estava no colégio (deve ter sido 1998, não 1985, eu não sou tão velho assim), o que me marcou nem foi a história (que eu percebi que lembrava com um surpreendente número de detalhes), nem os relacionamentos abusivos ainda meio atuais, e nem a forma como os personagens guardam o pinico debaixo da cama depois de usar.
O que me marcou foi a quantidade de fake news.
E nem digo sobre aquelas mentirinhas bobas que um personagem conta pra outro, como dizer que “a mulher, se não casar até os vinte anos, depois fica muito difícil achar marido” ou a afirmação completamente exagerada que “todo gringo é rico”. O povo é meio ignorante, faz parte.
Inadimissível é o rádio a pilhas dizer que “uma mosca voa tão rápido que se pudesse voar em linha reta, daria a volta ao mundo em 28 dias“.
Em primeiro lugar: como assim “se pudesse voar em linha reta”? Suas moscas estão bebendo e voando cambaleantes? Não há empecilho nenhum na biologia que impede o inseto de voar em linha reta. Talvez exista na meteorologia, como velocidade dos ventos; ou na geografia, como montanhas. Mas a mosca pode voar sim em linha reta.
Em segundo lugar, uma mosca vive entre 15 e 30 dias. Então mesmo que ela conseguisse fazer tal viagem, sobraria pouco tempo para organizar as fotos e humilhar as amigas moscas, então qual o sentido?
Finalmente, em terceiro lugar, uma mosca não é tão rápida assim. Moscas domésticas têm uma velocidade de vôo de aproximadamente 5km/h. Em piques curtos, quando uma mosca precisa ir atrás de um caminhão de esterco muito atraente, elas podem chegar até 18km/h, mas é óbvio que não conseguem manter essa velocidade por muito tempo.
Mesmo se conseguissem, a velocidade não é tão grande: para dar a volta nos pouco mais de 40.000km que se estendem pela circunferência do Globo, uma mosca precisaria de mais de 92 dias, mais de três vezes o tempo que a fake news do jornal espalhou.
Os insetos mais rápidos do mundo são as libélulas, que com uma velocidade de vôo de até 56km/h, poderiam fazer o percurso em 29 dias. Logo, dando um pique ou outro em uma região menos interessante do Pacífico, elas poderiam cumprir o tempo estipulado pelo programa de rádio e circundar o planeta em 28 dias.
Pode ser então que o locutor tenha se enganado e chamado a libélula de mosca? Pode. Mas se enganou o suficiente para a informação entrar na cabeça de Macabéa e a pobre miserável mulher sair por aí espalhando fake news.
Um problema que é maior hoje em dia do que era em 1985.