“Nós estamos falando sobre religião, board games, ou música?“, pergunta a certa altura uma confusa Irmã Barnes, jovem religiosa que foi parar na casa de Mr. Reed, na tentativa de convertê-lo a sabe-se lá qual vertente da religião mórmon ela e sua amiga seguiam. “Sim“, é a resposta de Mr. Reed, interpretado por um charmosíssimo e aterrorizante Hugh Grant, que faz de tudo nesse filme: mia como um gato, canta Creep, e imita o Jar Jar Binks.
E “sim” era de fato a melhor resposta possível para a pergunta, já que há tantas metáforas no delicioso diálogo que toma toda a primeira metade do filme Herege, novo lançamento espalhafatoso da A24 que chega aos cinemas em 20 de novembro.
A primeira metade do filme é basicamente a conversa entre os três atores, mandando bem demais. Hugh Grant, de Paddington 2, tem um carisma magnético, onde é impossível tirar os olhos dele, tornando fácil acreditar que as garotas não iriam sair correndo desesperadas nas diversas red flags que ele solta a cada linha de diálogo. As meninas, Sophie Thatcher e Chloe East, também mandam bem.
Mas quem rouba mesmo o protagonismo da primeira metade do filme é o diálogo. Delicioso, cheio de informações úteis e inúteis, e muito bem escrito, ele é uma discussão teológica recheada de metáforas conectando livros sagrados a board games, falando de filmes, deuses com cabeça de pássaro, e finalmente expondo publicamente o processo do Radiohead contra a cantora Lana Del Rey. Uma lindeza de texto que poderia muito bem ter sido escrito por Quentin Tarantino.
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Mas aí…
Aí vem a segunda metade, que deixa todo mundo com saudades da primeira.
O filme sai da discussão religiosa, larga dessa idéia de pessoas conversando numa sala e vira uma espécie de Jogos Mortais, com um Jigsaw nada inspirado, burro, e comandando um escape room mais cheio de furos do que a Bíblia.
Enquanto ele usava o diálogo para crescer o suspense, o filme ia puxando um elástico de tensão que parecia poder estourar a qualquer hora. Quando ele solta esse elástico e joga os personagens na ação orquestrada pelo vilão, ele fica imediatamente boboca. As “armadilhas” e o “labirinto” são toscos e não fazem o menor sentido. Os personagens, que duelavam com ótimos argumentos quinze minutos antes, agora são completos idiotas.
Com uma hora de filme eu estava animado em sair da sala e recomendar esse filme para cada transeunte que estivesse cruzando a Avenida Paulista; Terminada a película, a minha decepção com os rumos da história foi catastrófica.
A impressão que dá é que usaram roteiristas diferentes para escrever os diferentes atos do filme. Uma pena. Metade do filme tem nota dez, metade do filme tem nota zero. Na média, nota cinco.