O cinema, como um reflexo do mundo e da época, se adapta. Houve um tempo, na era de ouro dos filmes Western, que os grandes vilões dos filmes eram índios e ladrões de banco fuleiros. Nas décadas de 80 (e até 90), os russos eram escolhidos como vilões. Com o fim da Guerra Fria, os soviéticos deixaram de parecer tão malvados, então Hollywood foi lentamente posicionando terroristas (majoritariamente árabes, por motivos óbvios) nos papéis antagonistas.
É verdade que o mundo já deu a volta o suficiente para que russos voltem a tomar posição de destaque no ódio coletivo, mas há uma outra categoria que a cultura pop atual preferiu abraçar como vilanesca: os bilionários.
Com o estabelecimento definitivo do bilionário malvado e maluco em nossa realidade, parece natural que livros, séries e filmes adotem essa figura pitoresca como os novos vilões do momento. A classe alta estúpida vêm sendo achincalhada, muitas vezes por pessoas às quais ela mesmo pertence. Eu não me importo, se continuar a entregar histórias divertidas desse bando de imbecis, como fizeram em séries como “White Lotus” ou em filmes como “O Menu” ou no espetacular “Glass Onion“.
O grande barato dessa vilania podre de rica, além da conexão direta com a nossa realidade, é o natural fascínio dos personagens. Fica fácil empatizar com os protagonistas comuns, os afegões médios que desenvolvem uma certa admiração pelos vilões, uma vez que é plausível essa atitude. Todos temos um bilionário ou outro que a gente curte, seja um Elon Musk, uma Taylor Swift, um Neymar, um Bill Gates, ou uma Anitta. Mesmo o maior dos anti-capitalistas tem ali no fundo de seu âmago um desejo de uma casa com piscina e um bar molhado.
O filme Pisque duas vezes talvez falhe em gastar muito tempo insistindo nessa admiração. A gente entende rápido que é bacana ir pra uma ilha com piscina, champagne à vontade e comida da boa, não precisava dedicar tanto tempo explorando essa dinâmica. A repetição incessante dos dias de vida fácil dessa galera ocupa muito tempo de tela, o que parece uma barrigona de roteiro, mesmo o filme não sendo longo. Já entendi que a ilha inteira só tem um isqueiro; me explica aonde vocês conseguem tanto cigarro? Porque não fumam pen-drive que nem os bilionários e os jovens de hoje em dia? E que história é essa de tomar tequila para se lembrar das coisas? Comigo sempre foi o contrário.
Não que o filme seja horroroso. A estréia de Zoë Kravitz na direção é competente e o final é até bem legal, mas ele demora demais para entregar algo legal e falta criatividade de roteiro para variar o dia-a-dia de bonança dos personagens.
Como suspense, é cansativo. Como campanha anti-bilionário, ele fica muito atrás de “Glass Onion“.