SALADA CAPRESE o guacamole sempre acaba antes dos nachos

Satisfactory

Eu adoro automatização. Poucas coisas são mais prazeroras na minha vida do que passar 220 horas desenvolvendo um sistema que automatiza um processo que eu levaria uma hora por mês fazendo na mão. E melhor do que desprender todo esse enorme esforço resolvendo um problema da vida real é gastar algumas centenas de horas resolvendo problemas dentro de video games, é claro. Por sorte, Satisfactory é um jogo que permite gastar toda sua inteligência e esforços na automatização de tarefas que não levam nada a lugar nenhum.

A começar pelo fato que o jogo nem foi lançado ainda. Disponível em beta teste desde março de 2019, a previsão de chegada da versão 1.0 é em 10 de setembro. Portanto o jogo ainda não tem uma história e alguns dos elementos encontrados ainda estão com um aviso de “[WIP]” (work in progress). Então todo o esforço desprendido para completar as pequenas missões que o jogo te dá se tornam ainda mais fúteis, considerando que ele ainda não está completo ou sequer tem um enredo.

Não que ele seja completamente desprovido de sentido: você joga como um funcionário de uma suposta empresa chamada FICSIT Inc., que te envia para um planeta com o intuito de explorá-lo e produzir elementos para abastecer a própria empresa através do uso de um elevador espacial. As solicitações da empresa geralmente são peças e maquinário que não têm uso nenhum no planeta em que você habita. E para produzir essas peças, é necessário produzir outras milhares de peças, como parafusos, motores, circuitos, canos e placas de metal. No começo é possível produzir tudo a partir de uma mesa de ferramentas, mas conforme a necessidade vai se formando, é preciso construir fábricas para gerar essas peças. É claro que para construir as fábricas, outras tarefas são necessárias, como extrair pedras para produzir cimento. E os pequenos geradores de eletricidade que você inicialmente constrói para transformar a madeira e folhas do planeta em eletricidade logo têm que ser substituídos por usinas elétricas completas, moendo carvão, óleo, ou, em um jogo mais avançado, explorando energia nuclear; que por sua vez, gera lixo nuclear. Não demora muito para você estar desmatando florestas e destruindo a vida selvagem para dar lugar a fábricas de armamentos e bombas. E, é claro, gigantescos depósitos onde você armazena peças que produziu em larga escala e pode (ou não) vir a precisar no futuro. E da-lhe mais esteiras cortando florestas e atravessando montanhas, levando pregos e barras de metal de um canto ao outro do gigantesco mapa.

Para construir essa intricada mecânica, o jogo passou os últimos cinco anos em early access, o programa do Steam para jogos aiunda em desenvolvimento. E Satisfactory é um case de sucesso do programa, mostrando que às vezes a mecânica vale mais do que a história. O jogo já vai estrear como um total sucesso de vendas e crítica, colocando a produtora Coffee Stain de vez no radar dos gamers, não só pela qualidade de seus jogos (ela é a mesma empresa do absoluto sucesso Goat Simulator), como pela atenção ao público e divulgação descontraída das novidades nessa última empreitada.

Um sucesso tão acachapante que a recomendação que fica mesmo é para nem começar a jogar o jogo. Ele vai acabar consumindo seu tempo e sua energia mental que poderiam ser gastas em atividades mais importantes, como terminar aquele roteiro de filme que está estagnado em seu computador há meses.

Para um jogo tão divertido, ele acaba ficando próximo demais da experiência de trabalhar CLT.

Autor:
Barão do Principado de Sealand. Com uma inexplicável paixão por cinema, cervejas e queijos.